OPINIÃO | Como o relatório da HRMI sobre Angola reabre o debate sobre quem define os critérios pelos quais África é avaliada.
- Optinions & World
- June 26, 2026
Quando os rankings internacionais da Human Rights Measurement Initiative (HRMI), se transformam em narrativas globais, a metodologia torna-se tão importante quanto as conclusões.
Todos os anos repete-se o mesmo ciclo.
Por AfricaHeadline
Organizações internacionais publicam novos rankings sobre democracia, direitos humanos, governação, corrupção, liberdade de imprensa e Estado de direito. Em poucas horas, os resultados são reproduzidos pelos meios de comunicação internacionais, incorporados em análises de risco soberano, utilizados por investidores, citados por organizações multilaterais e transformados em referências para a avaliação de países.
Os números circulam muito mais rapidamente do que a metodologia que lhes dá origem.
Em África, o resultado é quase sempre o mesmo, na maioria dos grandes índices internacionais, os países africanos continuam concentrados nas últimas posições das classificações globais. Muitos dos desafios identificados são reais e não devem ser ignorados, no entanto, a consistência quase absoluta desta narrativa levanta uma questão que merece um debate muito mais profundo.
Até que ponto as metodologias utilizadas para medir África conseguem refletir a complexidade da realidade africana?
A questão não é se os governos africanos devem ser responsabilizados, devem.A responsabilização é essencial para fortalecer as instituições, melhorar as políticas públicas e proteger os direitos fundamentais.
A verdadeira questão é outra: as metodologias utilizadas para avaliar África são submetidas ao mesmo nível de escrutínio, transparência e rigor científico que exigem dos países que avaliam?
O relatório de 2026 da Human Rights Measurement Initiative (HRMI) sobre Angola constitui um exemplo revelador.
O documento atribui ao país 41,9% na categoria “Qualidade de Vida” e 5,5 pontos em 10 no indicador “Segurança face ao Estado”. Contudo, o próprio relatório reconhece que não dispõe de dados suficientes para avaliar direitos fundamentais como a liberdade de reunião e associação, a liberdade de expressão e a participação política. Reconhece igualmente que não existem dados suficientes para realizar comparações regionais abrangentes em várias áreas dos direitos civis e políticos.
Estas observações não invalidam automaticamente as conclusões do relatório, mas levantam uma questão metodológica fundamental.
Se partes importantes da informação permanecem incompletas, até que ponto a precisão aparente das classificações finais corresponde ao verdadeiro grau de certeza dos dados disponíveis?
Esta é uma discussão que ultrapassa um único relatório, é uma discussão sobre a forma como África continua a ser medida.
Precisão Estatística Não Significa Necessariamente Precisão Científica
Os grandes índices internacionais apresentam frequentemente resultados extremamente precisos, 41,9%. 43,7%. 5,5 em 10., esses números transmitem naturalmente uma imagem de elevada objetividade científica.
Contudo, existe uma diferença importante entre precisão estatística e robustez metodológica.
Quando o próprio relatório reconhece ausência de dados, limitações na cobertura das informações e impossibilidade de realizar determinadas comparações regionais, torna-se legítimo perguntar se o grau de precisão apresentado nas classificações finais transmite um nível de certeza que os próprios dados talvez ainda não permitam sustentar.
Na investigação científica, dados incompletos não invalidam necessariamente uma conclusão, mas obrigam sempre a interpretar os resultados com maior prudência. Essa prudência deveria ocupar um lugar mais central na forma como estes rankings são apresentados ao público.
Medir Resultados sem Medir a Velocidade da Transformação
Outro desafio metodológico prende-se com aquilo que os índices escolhem medir, a maioria avalia a situação atual dos países, muito poucos procuram medir a velocidade da mudança, esta diferença é particularmente importante para África.
Vários países do continente continuam a reconstruir instituições após conflitos armados, a expandir sistemas de saúde, a aumentar o acesso à educação, a investir em infraestruturas, eletrificação, digitalização da administração pública e inclusão financeira.
Essas transformações estruturais podem demorar décadas até se refletirem plenamente nos indicadores internacionais.
Uma metodologia que privilegia exclusivamente o resultado atual pode subvalorizar a dimensão das reformas em curso, o desempenho importa, mas a trajetória também.
O Contexto Também Deve Ser Medido
Nenhum indicador existe isoladamente, a qualidade das instituições resulta de fatores históricos, económicos, demográficos e políticos, países que emergiram recentemente de guerras civis enfrentam desafios diferentes daqueles que beneficiaram de estabilidade institucional durante mais de um século.
Reconhecer esse contexto não significa reduzir os padrões de exigência, muito menos justificar problemas de governação, significa apenas melhorar a qualidade da análise.
Uma metodologia que ignora variáveis estruturais corre o risco de produzir comparações tecnicamente consistentes, mas analiticamente incompletas.
A Persistência de uma Narrativa Histórica
Existe ainda uma dimensão histórica que merece reflexão. Durante o período colonial, uma parte significativa do conhecimento produzido sobre África era concebida fora do continente e tendia a retratar as sociedades africanas sobretudo através das suas fragilidades, da pobreza, da violência ou da alegada incapacidade institucional.
Esses retratos nem sempre tinham apenas um propósito académico; em muitos casos, serviam para legitimar relações de poder profundamente desiguais e reforçar a ideia de que África precisava de ser permanentemente tutelada por instituições externas.
Naturalmente, seria incorreto estabelecer uma equivalência direta entre a investigação científica contemporânea e a propaganda colonial. Os contextos históricos, os objetivos e os padrões de investigação são substancialmente diferentes.
Nesta senda, isso não impede que se coloque uma questão legítima, quando os principais rankings internacionais continuam a descrever África predominantemente através de indicadores de défice, atribuindo muito menor visibilidade às transformações económicas, institucionais e sociais em curso, não estarão, ainda que involuntariamente, a reproduzir um padrão narrativo com raízes históricas?
O problema não reside apenas na existência de avaliações críticas. A crítica é essencial para promover a responsabilização.
O problema surge quando os sucessos estruturais, a capacidade de recuperação após conflitos, a expansão da educação, da saúde, das infraestruturas ou da inclusão financeira permanecem relativamente invisíveis na construção da narrativa internacional. Nesse caso, o risco não é apenas estatístico; é também reputacional. A imagem de África continua a ser construída, em grande medida, por aquilo que lhe falta, e muito menos pela velocidade com que muda.
Medem-se Mais os Problemas do que as Transformações
Grande parte dos índices internacionais foi concebida para identificar falhas, muito menos frequente é a medição da capacidade de transformação dos Estados.
Pouco se avalia a reconstrução institucional, a expansão das infraestruturas, a melhoria dos serviços públicos, a inclusão financeira, a digitalização da economia, a expansão da educação ou o fortalecimento gradual das instituições.
O resultado é uma narrativa internacional que tende a enfatizar aquilo que os países africanos ainda não conseguiram alcançar, dedicando muito menos atenção ao progresso já realizado, esta diferença não é apenas académica, tem consequências económicas concretas.
As classificações internacionais influenciam decisões de investimento, avaliações de risco soberano, custos de financiamento, classificações ESG e a perceção internacional dos mercados.
A reputação tornou-se um ativo económico.
Quem Define as Regras da Avaliação?
Existe uma questão ainda mais profunda. Quem escolhe os indicadores? Quem define os pesos atribuídos a cada variável? Quem decide quais os aspetos do desenvolvimento que merecem ser medidos?
Hoje, a esmagadora maioria dos índices internacionais sobre governação e direitos humanos continua a ser concebida por instituições sediadas fora de África.
Universidades africanas, institutos nacionais de estatística e centros de investigação do continente continuam a desempenhar um papel relativamente reduzido na definição das metodologias, na seleção dos indicadores e na construção dos modelos analíticos. Esta observação não invalida a qualidade científica desses trabalhos.
Mas torna legítimo questionar se uma maior participação de especialistas africanos poderia produzir metodologias mais completas e representativas da diversidade do continente.
A Transparência Também Deve Aplicar-se aos Avaliadores
Os rankings internacionais desempenham um papel importante, promovem transparência, estimularam reformas em vários países, contribuem para o debate público.
Mas quanto maior for a sua influência, maior deve ser também a exigência quanto à transparência das suas próprias metodologias.
Instituições que avaliam governos devem aceitar que as suas metodologias sejam igualmente escrutinadas, debatidas e continuamente aperfeiçoadas.
É assim que se fortalece a credibilidade científica.
África Deve Participar na Construção das Métricas Globais
A solução não passa por rejeitar os rankings internacionais, nem por desvalorizar as críticas, passa por ampliar o número de instituições capazes de produzir conhecimento global.
África precisa de universidades, centros de investigação e institutos estatísticos capazes de desenvolver metodologias internacionalmente reconhecidas, produzir bases de dados robustas e participar, em pé de igualdade, na definição dos critérios que moldam a forma como o mundo mede a governação, os direitos humanos e o desenvolvimento.
Porque quem mede influencia a narrativa, e quem controla a narrativa influencia os mercados, o investimento e a própria reputação internacional dos Estados.
Durante demasiado tempo, África tem sido sobretudo objeto da medição, chegou o momento de ser também protagonista na construção das métricas pelas quais é avaliada. no final, a questão já não é apenas como África é classificada.
A questão verdadeiramente decisiva é saber se os sistemas que classificam África estão eles próprios sujeitos ao mesmo nível de rigor, transparência e responsabilização que exigem dos países que avaliam.